O que são nitrosaminas e por que aparecem em medicamentos?
Nitrosaminas são uma classe ampla de compostos químicos. Aparecem naturalmente, em pequenas quantidades, na água e em alimentos do dia a dia. As autoridades sanitárias passaram a monitorá-las de perto na indústria farmacêutica depois de identificar que também podem surgir, sem intenção, durante a síntese do Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) — o princípio ativo que faz o medicamento funcionar.
Entre os compostos mais estudados estão a N-nitrosodimetilamina (NDMA) e a N-nitrosodietilamina (NDEA), moléculas pequenas e já bem caracterizadas. Mais recentemente, o setor tem dado atenção às NDSRIs — impurezas de nitrosamina relacionadas ao próprio princípio ativo. Diferente das moléculas pequenas, uma NDSRI carrega fragmentos estruturais do medicamento em si, o que torna sua detecção mais complexa.
Principais pontos: nitrosaminas podem se formar sem intenção durante a síntese do IFA, e a simples possibilidade de formação não equivale a uma presença confirmada. O limite de ingestão aceitável varia por composto — 26,5 ng/dia para a NDEA, 96 ng/dia para a NDMA, segundo [FDA e EMA](https://www.fda.gov/media/141720/download). Toda avaliação começa por uma análise de risco química, antes de qualquer teste em bancada. E detectar, identificar e quantificar uma nitrosamina são três etapas analíticas diferentes, não sinônimos.
Compreendendo genotoxicidade, mutagenicidade e carcinogenicidade
Quando pesquisadores avaliam o risco de uma nitrosamina, tratam-na como uma substância potencialmente genotóxica. Os três termos usados nesse contexto, porém, não são sinônimos:
- Genotoxicidade: capacidade, em sentido amplo, de causar dano ao material genético (DNA).
- Mutagenicidade: um tipo específico de dano — o potencial de gerar mutações que persistem através de divisões celulares.
- Carcinogenicidade: o grau, comprovado em estudos, de uma substância induzir o desenvolvimento de câncer.
Nem toda nitrosamina carrega o mesmo risco. Algumas, como a NDEA, são classificadas como prováveis carcinógenos humanos, com potencial mutagênico bem documentado. Outras — sobretudo NDSRIs recém-identificadas — têm dados toxicológicos ainda incipientes e são avaliadas por comparação estrutural com compostos semelhantes, seguindo a Abordagem de Categorização por Potência Carcinogênica (CPCA) da FDA. Por isso a avaliação é sempre caso a caso: o risco real depende da identidade da substância, da quantidade acumulada e do tempo de exposição.
Os limites regulatórios refletem exatamente essa distinção. Compostos com dados próprios recebem um limite específico. Os demais são enquadrados por categoria estrutural:
| Composto | Base do limite | Limite de Ingestão Aceitável | Fonte |
|---|---|---|---|
| NDMA | Dado composto-específico | 96 ng/dia | FDA / EMA / Health Canada (2020) |
| NDEA | Dado composto-específico | 26,5 ng/dia | FDA / EMA / Health Canada (2020) |
| NDSRI — Categoria 1 | CPCA (categorização estrutural) | 26,5 ng/dia | FDA, Guidance for Industry (2023) |
| NDSRI — Categoria 2 | CPCA (categorização estrutural) | 100 ng/dia | FDA, Guidance for Industry (2023) |
| NDSRI — Categoria 3 | CPCA (categorização estrutural) | 400 ng/dia | FDA, Guidance for Industry (2023) |
| NDSRI — Categorias 4 e 5 | CPCA (categorização estrutural) | 1.500 ng/dia | FDA, Guidance for Industry (2023) |
O Guia nº 50/2021, versão 4, da ANVISA — em vigor desde agosto de 2024 — reflete os mesmos valores no Anexo I, harmonizando a exigência regulatória brasileira com FDA e EMA.
A avaliação de risco antes dos exames práticos
Ao contrário do que muita gente pensa, o laboratório não parte direto para o teste em bancada. Antes disso, conduz uma ampla avaliação de risco de nitrosaminas. Detectar isoladamente um componente suspeito não comprova, por si só, que a impureza vai se formar de fato no produto final.
Nessa etapa preventiva, os cientistas mapeiam os interferentes que podem introduzir contaminação ao longo da rota de síntese e da vida útil do produto:
- presença simultânea, na rota de síntese do IFA, de aminas e agentes nitrosantes;
- reagentes, solventes, catalisadores ou materiais reciclados usados na produção;
- contaminação cruzada vinda de maquinário compartilhado e de impurezas já presentes nas matérias-primas e excipientes;
- degradação química ou biológica da própria molécula ao longo do desenvolvimento;
- condições de armazenamento — temperatura e umidade elevadas por período prolongado — e a interação entre o produto e o material da embalagem primária (blíster ou frasco).
As fronteiras das técnicas e a precisão das análises
O teste em bancada só ocorre quando a avaliação de risco aponta viabilidade real de formação da nitrosamina. O objetivo do método analítico é isolar a substância suspeita dos demais componentes da amostra, reduzindo interferências antes de tentar confirmar e medir sua presença.
A separação normalmente combina duas etapas: um sistema de cromatografia — líquida ou gasosa — separa os componentes da amostra, enquanto um espectrômetro de massas identifica e mede cada substância pelas características da própria molécula. Na prática, isso significa trabalhar com cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massas em tandem (LC-MS/MS) ou com cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massas (GC-MS/MS), a depender da nitrosamina e da matriz do medicamento.
| Critério | LC-MS/MS | GC-MS/MS |
|---|---|---|
| Faixa típica de LOQ | ≈1–5 ng/mL em métodos LC-APCI-MS/MS para sartanas | ≈0,2–50 ng/mL, com LOD na faixa de pg/mL em métodos HS-SPME |
| Preparo de amostra | Geralmente mais simples — injeção direta ou diluição | Frequentemente exige headspace ou SPME para reduzir matriz |
| Uso típico | Nitrosaminas polares e IFAs solúveis em água | Nitrosaminas voláteis e semivoláteis |
Os valores acima refletem métodos publicados e validados para nitrosaminas em IFAs específicos — determinação em sartanas por LC-APCI-MS/MS e método HS-SPME-GC-MS/MS. Cada nitrosamina e cada matriz farmacêutica exige seu próprio desenvolvimento e validação — não são intercambiáveis entre produtos.
Na prática de laboratório, a seleção de método nunca é genérica. Definimos a rota analítica avaliando IFA, excipientes e forma farmacêutica de cada produto antes de aplicar qualquer protocolo de nitrosaminas. E revalidamos sempre que a matriz muda, mesmo quando o método já é conhecido na literatura para outro produto.
É o mesmo raciocínio que orienta a escolha de método em outras frentes analíticas, como a análise de polimorfismo ou a engenharia reversa de formulações: o método certo é definido pela pergunta que ele precisa responder, não pelo equipamento mais avançado disponível.
A importância da detecção versus a verdadeira identificação
Boa parte da confusão em torno de laudos de nitrosaminas vem de tratar três palavras como sinônimos, quando não são:
- Detectar: encontrar um sinal analítico compatível com a possível presença de uma substância — nunca, por si só, uma prova de identificação.
- Identificar: reunir evidências suficientes para afirmar, com base na estrutura molecular, qual substância exata está presente.
- Quantificar: determinar com rigor a concentração da substância identificada em toda a amostra do lote avaliado.
Confiabilidade dos ensaios e segurança plena dos limites de ingestão
Nenhum método analítico é infalível ou livre de interferências — mas a validação laboratorial garante um grau elevado e mensurável de confiabilidade. Validar significa comprovar, com dados, que o método recupera corretamente a substância pré-inserida, que é preciso o bastante para descartar falsos indícios da matriz, e que tem linearidade, seletividade e sensibilidade adequadas à faixa de concentração exigida.
Um método publicado para um produto não pode ser simplesmente copiado para outro composto sem nova validação, sob as mesmas condições do lote avaliado.
Essa validação define dois marcos que aparecem em todo laudo. O limite de detecção é o ponto mínimo em que uma falha é percebida, mesmo sem ainda ser possível medi-la com exatidão. O limite de quantificação é o piso a partir do qual o valor pode ser registrado com segurança estatística. Um resultado abaixo do limite de quantificação indica ausência de sinal relevante frente às diretrizes internacionais vigentes, não uma detecção incerta escondida.
Encontrar traços de uma nitrosamina numa rotina analítica não significa, de forma automática, que o medicamento representa risco clínico imediato. O que determina isso é a comparação com o Limite de Ingestão Aceitável de cada composto: 96 ng/dia para a NDMA, 26,5 ng/dia para a NDEA. São valores adotados de forma harmonizada por FDA, EMA e Health Canada, e refletidos no Guia nº 50/2021, versão 4, da ANVISA, em vigor desde agosto de 2024.
Esse valor não é uma barreira absoluta entre "seguro" e "perigoso". Ele nasce de uma extrapolação conservadora de estudos de carcinogenicidade, pensada para representar um risco adicional de câncer de 1 em 100.000 ao longo de uma vida inteira de exposição diária — é uma ferramenta de gestão de risco regulatório, não um veredito clínico individual.
Por isso, identificar uma impureza abaixo desse teto não equivale a uma emergência. E, pelo mesmo motivo, nenhum paciente deve interromper ou alterar por conta própria um tratamento prescrito com base numa notícia sobre nitrosaminas — essa decisão exige sempre a avaliação de um médico.
Esse tipo de investigação faz parte do escopo mais amplo da análise de composição farmacêutica — da caracterização do IFA ao controle de impurezas do produto final.
Referências Consultadas
- AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Guia nº 50/2021, versão 4 — Guia sobre o Controle de Nitrosaminas em Insumos Farmacêuticos Ativos e Medicamentos. (2024).
- AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Resolução da Diretoria Colegiada — RDC nº 677. (2022).
- FOOD AND DRUG ADMINISTRATION (FDA). Control of Nitrosamine Impurities in Human Drugs: Guidance for Industry. Revision 2. (2024).
- FOOD AND DRUG ADMINISTRATION (FDA). Information about Nitrosamine Impurities in Medications.
- FOOD AND DRUG ADMINISTRATION (FDA). Recommended Acceptable Intake Limits for Nitrosamine Drug Substance-Related Impurities. (2023).
- INTERNATIONAL COUNCIL FOR HARMONISATION (ICH). M7(R2): Assessment and Control of DNA Reactive (Mutagenic) Impurities in Pharmaceuticals to Limit Potential Carcinogenic Risk. (2023)._Guideline_Step4_2023_0216_0.pdf)
- MANCHURI, K. M. et al. Analytical Methodologies to Detect N-Nitrosamine Impurities in Active Pharmaceutical Ingredients, Drug Products and Other Matrices. Chemical Research in Toxicology (2024).
- WICHITNITHAD, W. et al. Current Status and Prospects of Development of Analytical Methods for Determining Nitrosamine and N-Nitroso Impurities in Pharmaceuticals. Talanta (2023).
- THRESHER, A. et al. Are All Nitrosamines Concerning? A Review of Mutagenicity and Carcinogenicity Data. Regulatory Toxicology and Pharmacology (2020).
- EUROPEAN DIRECTORATE FOR THE QUALITY OF MEDICINES & HEALTHCARE (EDQM). Validating Analytical Procedures for Determining Nitrosamines in Pharmaceuticals (2023).




