Percevia Logo
technical
analise_composicao
7 min de leitura

Análise de Nitrosaminas em Medicamentos: Detecção, Genotoxicidade e Segurança

Percevia Team

Percevia Team

Análise de Nitrosaminas em Medicamentos: Detecção, Genotoxicidade e Segurança

O que são nitrosaminas e por que aparecem em medicamentos?

Nitrosaminas são uma classe ampla de compostos químicos. Aparecem naturalmente, em pequenas quantidades, na água e em alimentos do dia a dia. As autoridades sanitárias passaram a monitorá-las de perto na indústria farmacêutica depois de identificar que também podem surgir, sem intenção, durante a síntese do Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) — o princípio ativo que faz o medicamento funcionar.

Entre os compostos mais estudados estão a N-nitrosodimetilamina (NDMA) e a N-nitrosodietilamina (NDEA), moléculas pequenas e já bem caracterizadas. Mais recentemente, o setor tem dado atenção às NDSRIs — impurezas de nitrosamina relacionadas ao próprio princípio ativo. Diferente das moléculas pequenas, uma NDSRI carrega fragmentos estruturais do medicamento em si, o que torna sua detecção mais complexa.

Principais pontos: nitrosaminas podem se formar sem intenção durante a síntese do IFA, e a simples possibilidade de formação não equivale a uma presença confirmada. O limite de ingestão aceitável varia por composto — 26,5 ng/dia para a NDEA, 96 ng/dia para a NDMA, segundo [FDA e EMA](https://www.fda.gov/media/141720/download). Toda avaliação começa por uma análise de risco química, antes de qualquer teste em bancada. E detectar, identificar e quantificar uma nitrosamina são três etapas analíticas diferentes, não sinônimos.

Compreendendo genotoxicidade, mutagenicidade e carcinogenicidade

Quando pesquisadores avaliam o risco de uma nitrosamina, tratam-na como uma substância potencialmente genotóxica. Os três termos usados nesse contexto, porém, não são sinônimos:

  • Genotoxicidade: capacidade, em sentido amplo, de causar dano ao material genético (DNA).
  • Mutagenicidade: um tipo específico de dano — o potencial de gerar mutações que persistem através de divisões celulares.
  • Carcinogenicidade: o grau, comprovado em estudos, de uma substância induzir o desenvolvimento de câncer.

Nem toda nitrosamina carrega o mesmo risco. Algumas, como a NDEA, são classificadas como prováveis carcinógenos humanos, com potencial mutagênico bem documentado. Outras — sobretudo NDSRIs recém-identificadas — têm dados toxicológicos ainda incipientes e são avaliadas por comparação estrutural com compostos semelhantes, seguindo a Abordagem de Categorização por Potência Carcinogênica (CPCA) da FDA. Por isso a avaliação é sempre caso a caso: o risco real depende da identidade da substância, da quantidade acumulada e do tempo de exposição.

Os limites regulatórios refletem exatamente essa distinção. Compostos com dados próprios recebem um limite específico. Os demais são enquadrados por categoria estrutural:

CompostoBase do limiteLimite de Ingestão AceitávelFonte
NDMADado composto-específico96 ng/diaFDA / EMA / Health Canada (2020)
NDEADado composto-específico26,5 ng/diaFDA / EMA / Health Canada (2020)
NDSRI — Categoria 1CPCA (categorização estrutural)26,5 ng/diaFDA, Guidance for Industry (2023)
NDSRI — Categoria 2CPCA (categorização estrutural)100 ng/diaFDA, Guidance for Industry (2023)
NDSRI — Categoria 3CPCA (categorização estrutural)400 ng/diaFDA, Guidance for Industry (2023)
NDSRI — Categorias 4 e 5CPCA (categorização estrutural)1.500 ng/diaFDA, Guidance for Industry (2023)

O Guia nº 50/2021, versão 4, da ANVISA — em vigor desde agosto de 2024 — reflete os mesmos valores no Anexo I, harmonizando a exigência regulatória brasileira com FDA e EMA.

A avaliação de risco antes dos exames práticos

Ao contrário do que muita gente pensa, o laboratório não parte direto para o teste em bancada. Antes disso, conduz uma ampla avaliação de risco de nitrosaminas. Detectar isoladamente um componente suspeito não comprova, por si só, que a impureza vai se formar de fato no produto final.

Nessa etapa preventiva, os cientistas mapeiam os interferentes que podem introduzir contaminação ao longo da rota de síntese e da vida útil do produto:

  • presença simultânea, na rota de síntese do IFA, de aminas e agentes nitrosantes;
  • reagentes, solventes, catalisadores ou materiais reciclados usados na produção;
  • contaminação cruzada vinda de maquinário compartilhado e de impurezas já presentes nas matérias-primas e excipientes;
  • degradação química ou biológica da própria molécula ao longo do desenvolvimento;
  • condições de armazenamento — temperatura e umidade elevadas por período prolongado — e a interação entre o produto e o material da embalagem primária (blíster ou frasco).

As fronteiras das técnicas e a precisão das análises

O teste em bancada só ocorre quando a avaliação de risco aponta viabilidade real de formação da nitrosamina. O objetivo do método analítico é isolar a substância suspeita dos demais componentes da amostra, reduzindo interferências antes de tentar confirmar e medir sua presença.

A separação normalmente combina duas etapas: um sistema de cromatografia — líquida ou gasosa — separa os componentes da amostra, enquanto um espectrômetro de massas identifica e mede cada substância pelas características da própria molécula. Na prática, isso significa trabalhar com cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massas em tandem (LC-MS/MS) ou com cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massas (GC-MS/MS), a depender da nitrosamina e da matriz do medicamento.

CritérioLC-MS/MSGC-MS/MS
Faixa típica de LOQ≈1–5 ng/mL em métodos LC-APCI-MS/MS para sartanas≈0,2–50 ng/mL, com LOD na faixa de pg/mL em métodos HS-SPME
Preparo de amostraGeralmente mais simples — injeção direta ou diluiçãoFrequentemente exige headspace ou SPME para reduzir matriz
Uso típicoNitrosaminas polares e IFAs solúveis em águaNitrosaminas voláteis e semivoláteis

Os valores acima refletem métodos publicados e validados para nitrosaminas em IFAs específicos — determinação em sartanas por LC-APCI-MS/MS e método HS-SPME-GC-MS/MS. Cada nitrosamina e cada matriz farmacêutica exige seu próprio desenvolvimento e validação — não são intercambiáveis entre produtos.

Na prática de laboratório, a seleção de método nunca é genérica. Definimos a rota analítica avaliando IFA, excipientes e forma farmacêutica de cada produto antes de aplicar qualquer protocolo de nitrosaminas. E revalidamos sempre que a matriz muda, mesmo quando o método já é conhecido na literatura para outro produto.

É o mesmo raciocínio que orienta a escolha de método em outras frentes analíticas, como a análise de polimorfismo ou a engenharia reversa de formulações: o método certo é definido pela pergunta que ele precisa responder, não pelo equipamento mais avançado disponível.

A importância da detecção versus a verdadeira identificação

Boa parte da confusão em torno de laudos de nitrosaminas vem de tratar três palavras como sinônimos, quando não são:

  • Detectar: encontrar um sinal analítico compatível com a possível presença de uma substância — nunca, por si só, uma prova de identificação.
  • Identificar: reunir evidências suficientes para afirmar, com base na estrutura molecular, qual substância exata está presente.
  • Quantificar: determinar com rigor a concentração da substância identificada em toda a amostra do lote avaliado.

Confiabilidade dos ensaios e segurança plena dos limites de ingestão

Nenhum método analítico é infalível ou livre de interferências — mas a validação laboratorial garante um grau elevado e mensurável de confiabilidade. Validar significa comprovar, com dados, que o método recupera corretamente a substância pré-inserida, que é preciso o bastante para descartar falsos indícios da matriz, e que tem linearidade, seletividade e sensibilidade adequadas à faixa de concentração exigida.

Um método publicado para um produto não pode ser simplesmente copiado para outro composto sem nova validação, sob as mesmas condições do lote avaliado.

Essa validação define dois marcos que aparecem em todo laudo. O limite de detecção é o ponto mínimo em que uma falha é percebida, mesmo sem ainda ser possível medi-la com exatidão. O limite de quantificação é o piso a partir do qual o valor pode ser registrado com segurança estatística. Um resultado abaixo do limite de quantificação indica ausência de sinal relevante frente às diretrizes internacionais vigentes, não uma detecção incerta escondida.

Encontrar traços de uma nitrosamina numa rotina analítica não significa, de forma automática, que o medicamento representa risco clínico imediato. O que determina isso é a comparação com o Limite de Ingestão Aceitável de cada composto: 96 ng/dia para a NDMA, 26,5 ng/dia para a NDEA. São valores adotados de forma harmonizada por FDA, EMA e Health Canada, e refletidos no Guia nº 50/2021, versão 4, da ANVISA, em vigor desde agosto de 2024.

Esse valor não é uma barreira absoluta entre "seguro" e "perigoso". Ele nasce de uma extrapolação conservadora de estudos de carcinogenicidade, pensada para representar um risco adicional de câncer de 1 em 100.000 ao longo de uma vida inteira de exposição diária — é uma ferramenta de gestão de risco regulatório, não um veredito clínico individual.

Por isso, identificar uma impureza abaixo desse teto não equivale a uma emergência. E, pelo mesmo motivo, nenhum paciente deve interromper ou alterar por conta própria um tratamento prescrito com base numa notícia sobre nitrosaminas — essa decisão exige sempre a avaliação de um médico.

Esse tipo de investigação faz parte do escopo mais amplo da análise de composição farmacêutica — da caracterização do IFA ao controle de impurezas do produto final.

Referências Consultadas

Tags:
nitrosaminas
impurezas
IFA
análise de resíduos
genotoxicidade

Perguntas Frequentes

O que são nitrosaminas em medicamentos?

Nitrosaminas são uma classe ampla de compostos orgânicos que podem surgir como impurezas indesejadas e não intencionais durante a síntese química do Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) ou etapas de formulação de medicamentos.

Como as nitrosaminas são detectadas e quantificadas?

Elas são separadas dos demais componentes da amostra por cromatografia líquida ou gasosa e, em seguida, identificadas e medidas por espectrometria de massas (LC-MS/MS ou GC-MS/MS) — a combinação exata depende da nitrosamina e da matriz do medicamento.

O que indica a validação de um método para nitrosaminas?

Validar significa comprovar, com dados de laboratório, que a técnica escolhida recupera corretamente a substância, descarta falsos indícios da matriz e tem linearidade, seletividade e sensibilidade adequadas — sempre para a combinação específica de composto e produto avaliada, nunca por transferência automática de outro método publicado.

Encontrar nitrosamina significa que o medicamento faz mal?

Não necessariamente. O que importa é a comparação com o Limite de Ingestão Aceitável de cada composto (96 ng/dia para NDMA, 26,5 ng/dia para NDEA, segundo FDA, EMA e ANVISA) — um valor calculado com margem conservadora para uma vida inteira de exposição, não um limiar entre "seguro" e "perigoso". Pacientes não devem interromper ou alterar um tratamento prescrito por conta própria com base nessa informação; essa decisão exige sempre a avaliação de um médico.

Recomendado para Você

Qual Laboratório Faz Engenharia Reversa de Medicamentos? Guia de Escolha
how_to
analise_composicao

Qual Laboratório Faz Engenharia Reversa de Medicamentos? Guia de Escolha

Um guia prático para escolher um laboratório analítico para engenharia reversa (deformulação) de medicamentos: o que comparar, o que perguntar e como se encaixa o protocolo Q1/Q2 da Percevia.

engenharia reversa de medicamentos
laboratório de deformulação
escolher laboratório analítico
+5
Percevia Team

Percevia Team

5 min de leitura
Leia mais →