Percevia Logo
technical
analise_composicao
5 min de leitura

Análise de Polimorfismo: Identificação e Avaliação de Risco de Formas Cristalinas

Percevia Team

Percevia Team

Análise de Polimorfismo: Identificação e Avaliação de Risco de Formas Cristalinas

Uma mesma molécula sólida pode se organizar em mais de uma estrutura cristalina, e essa escolha estrutural muda o desempenho do produto final: comprimidos, insumos ativos e até excipientes analíticos dependem dela. Este artigo reúne o que a literatura farmacêutica e os guias regulatórios já documentaram sobre o tema: o que é o polimorfismo, por que ele surge, como cada forma é identificada em laboratório e como se avalia o risco antes de liberar um lote.

Principais pontos: o polimorfismo é a capacidade de uma substância sólida se organizar em diferentes arranjos cristalinos sem alterar sua composição química. Levantamentos publicados na literatura mostram que múltiplas formas sólidas são comuns, não exceções, entre os fármacos já estudados. Encontrar uma nova forma cristalina não é, por si só, um defeito: o que decide se há risco é a avaliação de estabilidade, dissolução e fabricação de cada forma específica.

O que é polimorfismo e o que são formas cristalinas?

O polimorfismo é a capacidade de uma única substância sólida se organizar em duas ou mais estruturas cristalinas diferentes.

Formas cristalinas são essas diferentes estruturas que a mesma substância pode assumir no estado sólido. Em todas elas, a molécula isolada mantém a mesma composição química; o que muda é como as moléculas se agrupam no espaço. Esse rearranjo altera propriedades físicas como densidade, dureza e ponto de fusão.

Fatores que levam a mesma substância a formar diferentes estruturas cristalinas

Uma substância exibe arranjos diferentes porque as moléculas se acomodam da melhor forma possível para as condições físicas presentes no momento em que o cristal se forma.

Temperatura, pressão, umidade, taxa de resfriamento e o solvente usado na fabricação afetam diretamente como a molécula se organiza ao solidificar. Pequenas variações nesses fatores já bastam para gerar um arranjo cristalino diferente, mesmo partindo da mesma matéria-prima.

Uma análise de 2025 da equipe da Pharmaron sobre 476 novas entidades químicas estudadas entre 2016 e 2023 encontrou, em média, 5,5 formas cristalinas por composto na forma livre e 3,7 por sal. Isso confirma que múltiplas formas são a regra, não a exceção (Li et al., Journal of Pharmaceutical Sciences, 114(1), 2025, DOI 10.1016/j.xphs.2024.10.045).

Em quais situações uma forma cristalina afeta estabilidade, dissolução, fabricação ou desempenho?

O arranjo das moléculas altera a energia necessária para a substância se dissolver: agrupamentos cristalinos menos compactos costumam exigir menos energia para as partículas se separarem em meio líquido.

Segundo Singhal e Curatolo, o planejamento farmacêutico precisa considerar essas diferenças porque o polimorfismo pode impactar três áreas-chave da formulação (Singhal & Curatolo, Advanced Drug Delivery Reviews, 56(3):335-347, 2004, DOI 10.1016/j.addr.2003.10.008):

  • Estabilidade: algumas formas absorvem umidade ou se degradam mais rápido que outras durante o prazo de validade.
  • Dissolução: estruturas cristalinas mais soltas tendem a se dissolver mais rápido no organismo.
  • Fabricação: o formato geométrico do cristal influencia a fluidez do pó e pode causar quebra de comprimidos durante a compressão, exigindo ajustes no processo produtivo.

A revisão de Censi e Di Martino mostra que esse impacto fica mais visível na biodisponibilidade: substâncias com baixa solubilidade em água são as mais sensíveis a mudanças de desempenho fisiológico quando uma forma cristalina diferente é usada no produto final (Censi & Di Martino, Molecules, 20(10):18759-18776, 2015, DOI 10.3390/molecules201018759).

Como as formas cristalinas são identificadas?

A identificação estrutural usa técnicas baseadas na resposta térmica dos cristais e na difração de energia em laboratório.

A difração de raios X por pó (XRPD) gera um padrão único do arranjo molecular de cada cristal, funcionando como uma impressão digital do material. Já as técnicas de análise térmica, como DSC e TGA, medem a temperatura exata em que cada forma sofre fusão ou perda de massa, ajudando a confirmar qual estrutura está presente na amostra.

TécnicaO que medeQuando é mais usada
Difração de raios X por pó (XRPD)Padrão de difração único do arranjo cristalinoIdentificação e confirmação da forma cristalina
Calorimetria exploratória diferencial (DSC)Temperatura de fusão e transições de faseTriagem inicial de polimorfos e detecção de misturas
Termogravimetria (TGA)Perda de massa por aquecimentoDiferenciação entre hidratos, solvatos e formas anidras
Espectroscopia FTIR e RamanVibrações moleculares específicas de cada arranjoConfirmação complementar e monitoramento em processo

Como é feita a avaliação de risco de um polimorfo?

A avaliação de risco testa a estabilidade da forma cristalina sob estresse controlado, em múltiplos cenários, para determinar se ela pode se transformar em outra forma de maneira indesejada.

O guia Q6A do FDA, referência para especificações de novos fármacos, orienta esse exame considerando as condições prováveis de armazenamento, transporte e vencimento do produto (FDA, Q6A Specifications: Test Procedures and Acceptance Criteria).

Para medicamentos genéricos, o guia complementar da FDA sobre polimorfismo detalha os critérios de comparação com o produto de referência (FDA, ANDAs: Pharmaceutical Solid Polymorphism).

Etapa avaliadaO que é testadoPor que importa
ArmazenamentoEstabilidade sob variação de temperatura e umidade ao longo do prazo de validadeEvita degradação ou transformação de forma na prateleira
TransporteResistência a estresse mecânico e térmico durante o deslocamentoGarante que a forma cristalina não mude antes de chegar ao paciente
VencimentoComparação da forma cristalina no início e no fim do prazo de validadeConfirma que a dose terapêutica se mantém constante

Encontrar um polimorfo diferente significa que há um problema?

Não necessariamente. Uma nova forma cristalina não é uma falha automática: toda estrutura nova precisa apenas ser identificada, isolada e avaliada dentro dos critérios clínicos aplicáveis.

Braga, Casali e Grepioni descrevem o polimorfismo como um desafio contínuo para a estabilidade, mas também como uma ferramenta de inovação na ciência farmacêutica (Braga, Casali & Grepioni, International Journal of Molecular Sciences, 23(16):9013, 2022, DOI 10.3390/ijms23169013).

Testes podem mostrar que um arranjo desconhecido, avaliado de forma completa, não altera a absorção do produto. Isso é parte normal do avanço da ciência dos materiais. Pede vigilância, não a suposição automática de que o lote está comprometido.

Leia também

Para quem trabalha com caracterização analítica de formulações, dois artigos complementam este conteúdo: Engenharia Reversa e Deformulação: o Framework Q1/Q2 para Decodificar Qualquer Formulação, que detalha como identificar cada ingrediente e sua concentração exata em uma formulação, e Qual Laboratório Faz Engenharia Reversa de Medicamentos? Guia de Escolha, com os critérios práticos para escolher um laboratório analítico para esse tipo de projeto.

Conclusão

O polimorfismo é uma característica comum entre substâncias sólidas: múltiplas organizações cristalinas geram propriedades diferentes a partir da mesma molécula.

A identificação precoce, com XRPD e análise térmica, e uma avaliação de risco alinhada aos guias regulatórios ajudam a antecipar essas diferenças antes que virem problema de produto. Encontrar uma nova forma cristalina faz parte do processo normal de caracterização de um material, não é, isoladamente, sinal de defeito.

Tags:
Polimorfismo
Formas Cristalinas
Avaliação de Risco
FDA
Estabilidade

Perguntas Frequentes

O que é polimorfismo em medicamentos?

É a capacidade de um princípio ativo sólido se organizar em mais de uma estrutura molecular. A substância continua a mesma quimicamente, mas o modo como as moléculas se empacotam no espaço muda características como a estabilidade na prateleira e a velocidade de absorção pelo organismo.

O que são formas cristalinas de um princípio ativo?

São os diferentes arranjos físicos que a mesma molécula sólida pode assumir. É como blocos idênticos organizados de formas distintas: a depender de como se empilham durante a fabricação, o resultado tem propriedades de dissolução e compressão diferentes.

O que são hidratos e solvatos?

São formas cristalinas em que moléculas de água ou de outro solvente ficam retidas dentro do arranjo do cristal. Quando o solvente retido é água, a forma é chamada de hidrato; quando é outro solvente residual do processo de fabricação, é chamada de solvato. Ambos precisam ser identificados e classificados como parte da caracterização do material.

Recomendado para Você

Qual Laboratório Faz Engenharia Reversa de Medicamentos? Guia de Escolha
how_to
analise_composicao

Qual Laboratório Faz Engenharia Reversa de Medicamentos? Guia de Escolha

Um guia prático para escolher um laboratório analítico para engenharia reversa (deformulação) de medicamentos: o que comparar, o que perguntar e como se encaixa o protocolo Q1/Q2 da Percevia.

engenharia reversa de medicamentos
laboratório de deformulação
escolher laboratório analítico
+5
Percevia Team

Percevia Team

5 min de leitura
Leia mais →